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Funções Executivas

Autora: Natália M. Dias

 

     Cinco habilidades têm sido destacadas como essenciais para que uma criança seja bem-sucedida no processo de aprendizagem: criatividade, memória de trabalho, flexibilidade, autocontrole e disciplina (Arruda, 2015). Todas essas habilidades estão relacionadas às chamadas funções executivas e é fato que, recentemente, estas habilidades têm sido bastante destacadas na literatura internacional (e.g. Center on the Developing Child at Harvard University, 2011), sendo elencadas como fundamentais a desfechos relevantes ao longo de toda a vida (Diamond, 2013). 

 

O que são Funções Executivas?
     Funções executivas são um conjunto de habilidades responsáveis pela regulação do comportamento, ou seja, são habilidades que possibilitam ao indivíduo o controle cognitivo de suas ações, o que inclui seus pensamentos e emoções.

Um modelo bastante aceito sugere que as funções executivas sejam compostas por três habilidades básicas:

1) a inibição, que inclui tanto a capacidade de controle de interferência, ou seja, habilidade de inibir a atenção a distratores (inclui a atenção seletiva) ou de inibir pensamentos e memórias; quanto a inibição de resposta, que se refere à capacidade de inibir comportamentos inadequados (também referida como autocontrole);

2) a memória de trabalho, capacidade de sustentar e manipular informações mentalmente; e

3) a flexibilidade cognitiva, a habilidade de pensar ‘fora dos padrões’ e tomar diferentes perspectivas, tanto quanto mudar o foco atencional entre tarefas, estando também relacionada à criatividade e teoria da mente.

A interação entre estas habilidades básicas resultaria em outras, chamadas funções executivas superiores ou complexas, que incluem o planejamento e a resolução de problemas, por exemplo (Diamond, 2013). 


     Estudos têm mostrado que as funções executivas são suscetíveis a influências ambientais. Por exemplo, investigações já têm evidenciado a relação e mesmo o impacto que algumas variáveis podem ter sobre o desenvolvimento destas habilidades, incluindo cultura, ambientes desorganizados, ambiente familiar e estilo de interação entre a criança e os pais (Bernier, Carlson, Deschênes, & Matte-Gagné, 2012; Sarsour et al., 2011). Dentre tais variáveis do ambiente, destaque tem sido dado ao nível socioeconômico _ NSE (Noble et al., 2015).


     Neste contexto, dado que o Brasil é um país de amplos contrastes e variabilidade no que tange à distribuição de renda, e estando variáveis de NSE associadas ao desenvolvimento das funções executivas, seria pertinente que uma intervenção de amplo alcance pudesse ser conduzida de modo a promover o desenvolvimento e diminuir as diferenças nestas habilidades entre crianças oriundas de distintos backgrounds. Tal intervenção poderia ter amplo alcance se incorporada, como um complemento, ao currículo escolar e poderia ser implementada já em idades precoces, como em crianças já na pré-escola ou ingressantes no Ensino Fundamental, de modo a estimular precocemente e prevenir dificuldades futuras. Algumas evidências já sugerem que intervenções que promovem desenvolvimento das funções executivas podem minimizar o ‘gap’ de desempenho escolar de crianças provenientes de lares mais e menos favorecidos (Clancy Blair & Raver, 2014), destacando ainda que considerar estas habilidades no âmbito de programas educacionais é de grande relevância para crianças que vivem em lares ou comunidades mais pobres (Blair, 2016).


     Corroborando a relevância de se focalizar o desenvolvimento das funções executivas, a literatura tem relatado o impacto que essas habilidades podem ter sobre a aprendizagem e o comportamento ou funcionalidade na infância e mesmo ao longo de toda a vida do indivíduo, com repercussão nos âmbitos escolar, profissional e social (Diamond, 2013; Moffitt et al., 2011). De fato, funções executivas são necessárias para lembrar informações, controlar emoções e impulsos, para prestar atenção a uma tarefa ou ao ambiente físico, social e educacional (Engel de Abreu et al., 2015). Considera-se que indivíduos com pobres funções executivas podem experimentar, com frequência, uma sobrecarga de informações, o que pode levar a desorganização e dificuldades para iniciar, retomar ou finalizar tarefas, conduzindo a comprometimento em sua aprendizagem e funcionamento em diversas áreas. 

     Alguns programas e atividades para promoção de funções executivas já foram desenvolvidos e testados (e.g. Diamond & Ling, 2015;). No entanto, até meados de 2013 não havia disponível no contexto nacional um programa interventivo que pudesse ser incorporado ao currículo escolar e utilizado para promover o desenvolvimento destas habilidades. Foi neste cenário que o Programa de Intervenção em Autorregulação e Funções Executivas – PIAFEx (Dias & Seabra, 2013) foi desenvolvido, sendo pioneiro nessa área. O PIAFEx é um complemento curricular que contempla um conjunto de atividades cujo objetivo é estimular o desenvolvimento de funções executivas e promover autorregulação em crianças pré-escolares e ingressantes no Ensino Fundamental. Já há evidências de sua efetividade publicadas (Dias & Seabra, 2015a, 2015b; Dias & Seabra, 2017). 


    É fundamental que pedagogos, psicopedagogos, psicólogos e profissionais ligados à área de educação conheçam as funções executivas e procedimentos baseados em evidência para sua promoção no contexto escolar.

 

Referências

Arruda, M. A. (2015). Intervenções no contexto escolar. In N. M. Dias & T. P. Mecca (Eds.), Contribuições da Neuropsicologia e Psicologia para intervenção no contexto educacional (pp. 41–51). São Paulo: Memnon.

 

Bernier, A., Carlson, S. M., Deschênes, M., & Matte-Gagné, C. (2012). Social factors in the development of early executive functioning: a closer look at the caregiving environment. Developmental Science, 15(1), 12–24. http://doi.org/10.1111/j.1467-7687.2011.01093.x

 

Blair, C. (2016). Executive function and early childhood education. Current Opinion in Behavioral Sciences, 10, 1–6. http://doi.org/10.1016/j.cobeha.2016.05.009

 

Blair, C., & Raver, C. C. (2014). Closing the achievement gap through modification of neurocognitive and neuroendocrine function: results from a cluster randomized controlled trial of an innovative approach to the education of children in kindergarten. PloS One, 9(11), e112393.http://doi.org/10.1371/journal.pone.0112393

 

Center on the Developing Child at Harvard University. (2011). Building the Brain’s “Air Traffic Control” System: How Early Experiences Shape the Development of Executive Function: Working Paper No. 11.

 

Diamond, A. (2013). Executive functions. Annual Reviews of Psychology, 64, 135–168.http://doi.org/10.1146/annurev-psych-113011-143750

 

Diamond, A., & Ling, D. S. (2016). Conclusions about Interventions, Programs, and Approaches for Improving Executive Functions that appear Justified and those that, despite much hype, do not. Developmental Cognitive Neuroscience, 18, 34–48.http://doi.org/10.1016/j.dcn.2015.11.005

 

Dias, N. M., & Seabra, A. G. (2013). Programa de Intervenção em Autorregulação e Funções Executivas - PIAFEx. São Paulo: Memnon.

 

Dias, N. M., & Seabra, A. G. (2015a). Is it possible to promote executive functions in preschoolers? A case study in Brazil. International Journal of Child Care and Education Policy, 9(6), 1–18.http://doi.org/10.1186/s40723-015-0010-2

 

Dias, N. M., & Seabra, A. G. (2015b). The Promotion of Executive Functioning in a Brazilian Public School: A Pilot Study. The Spanish Journal of Psychology, 18, 1–14. http://doi.org/10.1017/sjp.2015.4

 

Dias, N. M., & Seabra, A. G. (2017). Intervention for executive functions development in early elementary school children: effects on learning and behaviour, and follow-up maintenance. Educational Psychology, 1–19. http://doi.org/10.1080/01443410.2016.1214686

 

Engel de Abreu, P., Tourinho, C., Puglisi, M., Nikaedo, C., Abreu, N., Miranda, M., … Martin, R. (2015). A Pobreza e a Mente: Perspectiva da Ciência Cognitiva.

 

Moffitt, T. E., Arseneault, L., Belsky, D., Dickson, N., Hancox, R. J., Harrington, H., … Caspi, A. (2011). A gradient of childhood self-control predicts health, wealth, and public safety. Proceedings of the National Academy of Sciences, 108(7), 2693–2698.http://doi.org/10.1073/pnas.1010076108

 

Noble, K. G., Houston, S. M., Brito, N. H., Bartsch, H., Kan, E., Kuperman, J. M., … Sowell, E. R. (2015). Family income, parental education and brain structure in children and adolescents. Nature Neuroscience, 18(5), 773–778.http://doi.org/10.1038/nn.3983

 

Sarsour, K., Sheridan, M., Jutte, D., Nuru-Jeter, A., Hinshaw, S., & Boyce, W. T. (2011). Family Socioeconomic Status and Child Executive Functions: The Roles of Language, Home Environment, and Single Parenthood. Journal of the International Neuropsychological Society, 17(1), 120–132. http://doi.org/10.1017/S1355617710001335